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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Revisitar Nice

Na altura que aconteceu Nice fiquei chocado. Mas precisava de algum distanciamento para analisar as coisas friamente. E agora que já passou algum tempo continuo sem fazer ideia do que mais se possa dizer acerca de semelhante barbárie. Já tudo foi dito e repetido. Nada mais tenho a acrescentar.

 

No entanto, uma coisa Nice nos ensinou. Que não é por vivermos num estado de emergência constante que impedimos o terror. Com efeito, França já desde 13 de Novembro de 2015, aquando dos atentados de Paris, que se encontra em alerta máximo. E não foi por isso que se evitou Nice.

 

Os benefícios dos estados policiais, com dispositivos musculados e proibicionismos galopantes, são altamente duvidosos. Excepção feita aos regimes autoritários, claro está, que agradecem esta opção. Mas numa democracia moderna, onde a liberdade e o estado de direito devem andar em par, pouco ou nada se ganha. Aliás, as interdições até podem ter o resultado contrário ao esperado.

71. Revisitar Nice.jpe

 

Os proibicionismos são normalmente formas de lidar com aquilo que desconhecemos ou receamos. Quando proibimos o uso de burquinis nas praias, além de interferirmos com as liberdades individuais e religiosas, e mesmo com a desculpa de evitar conflitos sociais latentes, abrimos uma caixinha de Pandora. O que virá a seguir? Proibimos as mini-saias, porque podem provocar violações? Proibimos a homossexualidade, por dar azo à homofobia? Proibimos os não caucasianos de circularem em áreas abastadas, porque podem causar o pânico nos residentes? Proibimos o futebol, porque não raras vezes redunda em violência? Quem achou que fazendo regulamentos sobre a forma como as mulheres se vestem (ou despem) na praia iria resolver a questão do terrorismo foi de uma ingenuidade tremenda. Digo ingenuidade, para não dizer ignorância.

71. protesto_burquini.jpg

 

Pessoalmente, acho que todas as religiões estão a mais. Mas entendo que todas as pessoas têm direito de professar a fé que muito bem entendem. E manifestá-la de forma correcta, desde que não interfira com a liberdade alheia. No caso dos burquinis, a manifestação não incomoda ninguém. A não ser as próprias pessoas que o vestem, se o fizerem coagidas. Mas essa é uma outra questão. E já existem leis, e bem, que defendem as mulheres contra este tipo de violência.

 

Revisite-se Nice, Paris, Londres, Madrid, Bruxelas… Compreenda-se que mostrando intolerância estamos a fortalecer os argumentos de quem nos ataca.

 

Montijo, 25 de Agosto de 2016

Radicalização Ocidental

 Foto: Twitter

Todos os dias surgem novas notícias, a maioria não deveriam entrar no campo da “notícia” porque não passam de pequenas histórias de café e por isso ignoro-as. Outras são pertinentes e importantes mas não sei ou não quero falar sobre elas como é o caso de mais uma injecção de capital na banca que em última analise irá agravar a vida dos portugueses.

Outras inquietam-me de tal modo que não as consigo contornar. Foi por inquietação que comecei a escrever  já lá vão uns anos e ainda hoje é a inquietação do que está mal que me move.

O que inquieta agora são polícias a forçar mulheres a despirem-se no meio da praia.

Não são polícias de nenhum país do fim das tabelas civilizacionais, falamos de um país que se diz na vanguarda da liberdade e da democracia, a França.

Este é o país da revolução francesa cujo lema era “Liberté, égalité, fraternité”- Este lema é ainda hoje encontrado nas páginas oficiais do governo francês, sitio onde podemos encontrar a Constituição da República Francesa (CRF).

A Constituição Francesa, ainda que com algumas nuances e uma organização diferente, não é substancialmente diferente da nossa. Percorrendo esta página podemos ser redireccionados para : Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen de 1789” e ao aqui chegarmos podemos ler: “Art. 1er. Les hommes naissent et demeurent libres et égaux en droits. Les distinctions sociales ne peuvent être fondées que sur l'utilité commune.

Art. 4. La liberté consiste à pouvoir faire tout ce qui ne nuit pas à autrui : ainsi, l'exercice des droits naturels de chaque homme n'a de bornes que celles qui assurent aux autres Membres de la Société la jouissance de ces mêmes droits. Ces bornes ne peuvent être déterminées que par la Loi.

Art. 5.  La Loi n'a le droit de défendre que les actions nuisibles à la Société. Tout ce qui n'est pas défendu par la Loi ne peut être empêché, et nul ne peut être contraint à faire ce qu'elle n'ordonne pas.  “

Traduzindo e sumarizando, todos nascem iguais, a liberdade é de todos excepto as liberdades limitadas por lei, a lei existe para proteger a sociedade e ninguém pode ser forçado a fazer o que não conste na lei.

Lá, tal como cá, a legislação é subalterna da constituição.

Se me perguntarem a minha opinião eu direi que o uso de burca, xador, nicabe ou hijab são demonstração da limitação da liberdade das mulheres e devemos tentar que essa liberdade exista e seja a mais ampla possível tal como está escrito, e bem na CRF.

No entanto existem pessoas que escolhem de livre vontade caminhos que a mim me são estranhos. Na China usam fatos que mais parecem saídos de um filme de fetiches. Por cá as freiras usam o seu hábito e vão assim para a praia sem que ninguém reclame nem do hábito nem da sua opção de vida.

 

 

Estes polícias franceses, defensores da constituição que os orienta para a liberdade, igualdade e fraternidade, tornam-se semelhantes aos soldados do DAESH para os quais a liberdade sofreu um afunilamento para uma escolha única.

Por lá quem não usa burca é punido. Em França podemos andar vestidos com um hábito, de palhaços, como mimos, fato de mergulho… de burkini é que não.

Eu não sei qual é o caminho, mas este não é por certo. França (e não só), com base no medo começam a percorrer o mesmo caminho do DAESH mas em sentido oposto.

Diria um amigo que “os extremos tocam-se sem nunca passar pelo centro…”

Ética empresarial ou O Estranho Caso dos Estágios Profissionais

Em verdade não posso afirmar estar surpreendido com esta notícia - http://www.jn.pt/nacional/interior/patroes-obrigam-estagiarios-a-devolver-salarios-5350110.html. Desde a primeira hora em que foram criados os estágios “bonificados”, que suspeitei que algo parecido viesse a acontecer. Nunca vi com bons olhos a criação artificial de emprego. É até perverso que se cortem lugares e a possibilidade de contratação em serviços públicos carentes de funcionários, para depois se financiar estágios profissionais na iniciativa privada. O actual governo já devia ter feito alguma coisa para alterar esta situação.

70. Ética empresarial ou o estranho caso dos est

 

No entanto, embora não me declare surpreso, sinto-me escandalizado com este assunto. Isto revela a classe de empresários que temos no nosso país. Na sua generalidade são pessoas mal preparadas e muito mal formadas. Só assim se justifica o cúmulo de solicitar a devolução do valor subsidiado pelo Estado ao abrigo destes estágios profissionais. Para se ter uma noção dos valores que envolvidos, um estagiário pode receber entre € 419,22 (correspondente ao Indexante dos Apoios Socias – IAS) e € 691,71 (1,65 vezes o IAS). Uma fortuna, portanto. O Instituto de Emprego e Formação Profissional financia 65% a 80% deste valor. Pode chegar mesmo a 95%, mas apenas em caso específicos, como de pessoas com deficiência. Assim, o empresário que contrata estagiários e exige a estes a restituição do valor participado pelo Estado ainda recebe pelas pessoas que tem a trabalhar para si.

 

Irrita-me acima de tudo, a forma ligeira como está a ser tratada esta polémica. Para além do monte de ilegalidades cometidas, estes empresários tiram partido de pessoas que agora iniciam o seu trajecto profissional. E é este o primeiro cartão-de-visita que recebem quando entram para a chamada vida activa. O chico espertismo e a ganância como forma de vencer na vida. São estas as primeiras lições recolhidas. É moralmente asquerosa a ética empresarial portuguesa

 

Em muitas profissões os estágios são essenciais e noutras são mesmo obrigatórios. Portanto, os jovens muitas vezes não têm outra solução senão aceitar as regras impostas pelos patos bravos. Gostaria no entanto de apelar a que as vítimas deste esquema denunciassem a situação junto das entidades competentes. Só com queixas formalizadas os prevaricadores podem ser investigados e responsabilizados pelos seus actos. Não podemos continuar a pactuar com este estado de coisas. Assobiando para o lado e esperar a nossa vez na cadeira do poder, para continuar a perpetuar este ciclo de abuso e exploração dos trabalhadores. Essa não é a solução para por cobro a semelhantes atropelos.

 

Hoje tenho o que gosto de apelidar de um normal vínculo de trabalho. Rejeito liminarmente o rótulo de privilegiado. Até porque isso é alinhar na retórica neoliberal de que o mundo mudou e que a relação laboral tem hoje de ser outra, leia-se, sem qualquer segurança ou dignidade nas funções e retribuição monetária. Mas sei muito bem o que significa ter um vínculo precário ou mesmo não ter qualquer vínculo. Passei por aí e não gostei. Sei que é difícil viver na constante dúvida, sempre a necessitar comprovar o nosso valor mais que provado. Sempre numa posição de subserviência para ter um amanhã viável com um mísero salário no bolso. Mas sei também que isso não tem de ser assim. Principalmente se todos os trabalhadores, cientes e cumpridores dos seus deveres, exigirem e lutarem pelos seus direitos.

 

Uma última nota para alguns arautos que andam por aí a declarar que esta notícia é uma espécie de cortina de fumo para distrair a opinião pública da descida da taxa de desemprego. Mesmo dando de barato e alinhando nesta teoria da conspiração, dar destaque a situações relacionadas com a exploração laboral apenas podem pecar por defeito, nunca por excesso! Todos sabemos muito bem o tipo de emprego, principalmente ao nível do vínculo contratual, que tem sido criado nos últimos tempos. Afinal, quem precisa de um emprego onde se paga para trabalhar?

 

Montijo, 23 de Agosto de 2016

Ninguém quer saber do Ruben Cavaco

 

É preciso dize-lo. Ninguém quer saber do Ruben Cavaco.

O que todos andam à procura é de sangue dos irmãos que por obra do acaso são iraquianos de onde se assume que são muçulmanos e a isto acresce a polémica por terem imunidade diplomática por serem filhos do embaixador do Iraque em Lisboa.

Sangue, muçulmano, escândalo internacional. Que mistura fantástica para vender jornais!

Titulo no Expresso.pt de hoje: “Padrasto de jovem agredido admite terceiro envolvido no caso de Ponte de Sor”.

O título pede sangue de mais um e isso é revelado precisamente pelo padrasto do Ruben que diz no corpo da notícia, longe dos olhos dos leitores de “gordas” que a família não foi contactada nem pelos presumíveis agressores nem pelas autoridades. Exceptua-se aqui o Prof. Marcelo que no calor do momento ligou para o hospital para saber como estava o “rapaz”.

Já sobre os presumíveis agressores as notícias são diárias esmiuçando todos os detalhes da vida dos rapazes.

Não quero explorar muito as questões sobre imunidade diplomática porque é muito fácil reclamar sobre elas num país com direitos e garantias mas as regras de imunidade que por cá se praticam são as mesmas que se praticam noutros pontos do mundo onde a liberdade e justiça podem não existir. Ainda assim, e seja em que ponto do mundo for, nenhuma imunidade diplomática poderá salvaguardar sujeitos que tomam a iniciativa do ataque. Quanto muito, e por uma questão de imparcialidade, um corpo diplomático deve responder num tribunal internacional e a ser o caso, cumprir pena em terreno neutro.

Facto é que os dois irmãos na companhia ou não de um terceiro individuo poderiam ter matado um jovem e a imunidade seria a mesma, aquela que lhes permitiria (permitirá) sair impunes da ocorrência.

Mas voltemos ao que interessa, as pessoas querem sangue.

Não sou apologista de violência e esta só deve ser considerada quando mais nada for solução. O suposto amigo do Ruben Cavaco diz que ele e o grupo de amigos não provocaram os irmãos iraquianos. Já Haider e Ridha dizem que foram atacados primeiro verbalmente e depois fisicamente por um grupo de 6 jovens.

Ao regressarem ao bar, onde tinham deixado pertences caídos, voltaram a encontrar Ruben e a discussão recomeçou. 

Vamos a factos: os gémeos dizem que estavam na companhia de outros amigos quando foram provocados e atacados da primeira vez. Os amigos não fizeram nada para os ajudar?

Os gémeos dizem que foram atacados fisicamente já fora do bar por 6 jovens mas nenhum dos dois apresenta qualquer tipo de ferimento visível resultante desse ataque.

O amigo de Ruben diz que este saiu de onde estavam com a namorada mas que este iria ter com ele novamente. Sendo que a namorada não esteve envolvida nos confrontos, nem os amigos, assume-se que quando os gémeos encontraram Ruben este estaria sozinho.

Fazendo as contas este perdeu a vantagem de 6 para 2 ficando agora ele contra os gémeos que são mais velhos que Ruben.

Vamos assumir que os gémeos tenham sido provocados e até humilhados de variadas formas. Sendo que não os vejo minimamente feridos há algo que justifique violência suficiente, mesmo na alegada legítima defesa, para partir diversos ossos faciais ao ponto de colocar outro em coma?

Não me importa se são iraquianos, transmontanos ou alentejanos.

Importam-me três coisas:

A ser verdade que o grupo de Ruben provocou com comentários racistas e xenófobos que estes sejam punidos pelo facto. O segundo acto não iliba um primeiro.

Que os gémeos sejam julgados pela violência cometida como qualquer outro cidadão e cumpram o que tenham a cumprir como outro cidadão normal.

Que a imunidade diplomática não entre no campo do “vale tudo” e que se criem condições legais internacionais para que o respeito e liberdade de ambas as partes seja cumprido.

Não quero matar o mensageiro mas também não quero que ele me mate a mim.

Fora estas considerações, é preciso saber que não fosse o facto de os gémeos serem filhos de um embaixador e provavelmente esta noticiam só apareceria no Correio da Manhã nas notícias de mortos e facadas.

 

 Decreto-Lei n.º 48295. D.R. n.º 74, Série I de 1968-03-27

 

O Menino de Aleppo

Carregado ao colo é depositado no interior da ambulância. É filmado e fotografado. Visualmente documentado para memória futura. Mantém-se imóvel; quedo. Coberto de pó e pintado de sangue. Assim ficou conhecido o menino de Aleppo. Que terá nome certamente, como todos nós. Mas que possivelmente já o esqueceu. Entre o som das bombas e o cheiro da morte, perdem-se as sílabas...

69. menino de aleppo.jpg

Não quero dizer seu nome. Não o direi. Torna tudo mais pessoal. Aquela ténue fronteira entre sentir o choque e sentir a dor imensa por dentro, sem me conseguir alienar. O travo amargo da inquietude que tento recusar. Mas pleno da certeza de que todas as guerras são estúpidas! Fruto de inconstâncias, ganâncias e intolerâncias. No final, pouco importa quem tem razão para as vidas adiadas. E nada disso importa para as vidas perdidas. Nada compensa o horror.

 

 

O que importa realmente lembrar é que aquele menino, resgatado dos despojos, tem 5 anos de idade. Tantos como o tempo que dura a guerra civil na Síria. Aquilo é para ele, mais um dia banal. O único quotidiano que conhece. Apático enfrenta o que na sua mente sabia inevitável. Sabia-o há muito, quando ainda tinha nome, que um dia o som da sirene da ambulância seria para si. Seria para os seus.

 

Mas dói muito. Dói tanto ver aquele menino ali firme e que não chora. Como dizem dos homens. Mas eu sou homem e choro. Não consigo ficar indiferente. O desassossego inunda-me e transborda em lágrimas. Com a vista toldada alinho frases avulsas, na ilusão de que possam fazer diferença...

 

Montijo, 19 de Agosto de 2016

Do mal, o menos...

 

Aproximam-se a passos largos as eleições nos Estados Unidos.

As eleições primárias ditaram o afastamento do meu preferido, Bernie Sanders a favor de Hillary Clinton para os democratas.

Do outro lado temos uma figura de desenho animado ao estilo South Park, uma caricatura vida de uma parte da sociedade que preferimos ignorar que existe. Um bully, um fanfarrão, um produto mal acabado, destila veneno por todos os lados, não acerta uma, uma mente obscura e desprezível que carrega o nome de Donald Trump.

Hillary Clinton tem uma longa carreira política e só quem não tem opinião é que não é alvo de críticas, no entanto Hillary Clinton carrega na mochila uma quantidade interessante de polémicas que nada têm que ver com posicionamento politico ou opiniões, opiniões estas que têm variado ao longo dos anos mediante os adversários que foi enfrentando. Demonstra muita capacidade de encaixe…

Mas numa luta que é feita a dois, não porque não existam mais candidatos mas porque o sistema favorece o bipartidarismo como se tem tentado em Portugal, acabamos na situação de ter de optar pelo mal menor (até porque dos outros pouco ou nada sabemos).

O mal menor, porque ninguém quer que os vilões tenham acesso a armas nucleares e porque não existem super-herois, é ter de escolher Hillary.

Não me interessa que seja a primeira mulher a vencer, a ter que escolher uma mulher optaria claramente por Michelle Obama. Opto pelo mal menor, Hillary, porque assim fica uma réstia de esperança que as coisas não piorem muito mais.

Com Trump temo o pior.

 

Ainda a (novela) CGD

Esta “novela” já tinha começado mal. E continua... A notícia de hoje indica que o BCE rejeitou 8 dos nomes avançados para administradores não-executivos da CGD. Prontamente as Finanças vieram comunicar que este chumbo não punha em causa a idoneidade das pessoas. A ser verdade o que se noticia, a recusa dos 8 elementos está relacionada com o limite à acumulação de cargos, prevista no Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras (legislação nacional). Vejamos então o que diz a lei quanto a isto.

 

Efectivamente, o Decreto-lei 157/2014, de 24 de outubro, que transpõe para a ordem jurídica interna alguns regulamentos e directivas europeias, expressa o seguinte no n.º 3 artigo 36.º:

“(...) é vedado aos membros dos órgãos de administração e fiscalização das instituições de crédito significativas em função da sua dimensão, organização interna, natureza, âmbito e complexidade das suas atividades, acumular mais do que um cargo executivo com dois não executivos, ou quatro cargos não executivos.”

 

Parece evidente que muitos dos nomes constantes na lista que veio a público extravasam os limites enunciados no quadro legal. Mais à frente o mesmo Decreto afirma que poderão existir excepções devidamente autorizadas pelo Banco de Portugal. Resta saber se alguma vez essas excepções foram solicitadas ao regulador e, na afirmativa, se as mesmas faziam parte do dossier enviado a Bruxelas.

68. Ainda a CGD.jpg

São inúmeras as questões envolvidas por toda esta polémica referente à nomeação de nova Administração para a CGD. Gostaria de partilhar 3 que me inquietam particularmente:

  1. O amadorismo atroz por parte de quem apresenta a proposta destes nomes, que presumo tenha sido responsabilidade de António Domingues. Revela ignorância relativamente à legislação nacional que regula o sector financeiro, o que é vergonhoso. (Não quero pensar que tal foi feito premeditadamente, o que seria muito mais grave). Esta é uma derrota pessoal por parte de quem, para os devidos efeitos, ainda nem iniciou funções.
  2. A falta de preparação tremenda dos comentadores económicos da nossa praça, que em momento algum assinalaram este problema. Andaram às voltas com os nomes indicados, para cima e para baixo e para os lados, sem nunca apontar as questões legais que pudessem estar subjacentes. Para fazer crítica económica na televisão ou jornais, não basta ter meia dúzia de rasgos populistas. Um categórico atestado de incompetência aos “camilos, neves, ferreiras” e outros que tais...
  3. O comunicado emitido pelas Finanças frisa que não houve qualquer objeção do BCE quanto à estrutura de governação defendida para a CGD, nem relativamente à idoneidade das pessoas indicadas para os cargos. Neste último aspecto, o que está em causa é a simples acumulação de funções e uma legislação nacional mais restritiva que a norma europeia. Isto deixa antever mexidas na lei para continuar a acomodar os nomes dos membros não-executivos para o Conselho de Administração pretendidos por António Domingues. O que, a meu ver, é errado (para além de suspeito).

 

Independentemente da publicitada carta-branca dada a António Domingues, o Governo não fica nada bem na fotografia. Ele é, e esperemos que continue a ser, pois é sinal que a CGD se mantém na esfera pública, o responsável final de todo o imbróglio criado. Não pode sacudir a água do capote. Os prazos, os nomes, as leis. Começa a ser demasiado; causa fastio. E fragiliza, obviamente, a posição da CGD no sector bancário. A seu tempo veremos as consequências.

 

Está quase a fazer um ano que o actual Governo tomou posse. Desde o início ficou claro que haveria mexidas na CGD. Tal como foi benéfico para o país encontrar uma governação estável alicerçada no panorama parlamentar saído das últimas legislativas, também para a CGD era imperativo que uma solução aparecesse no mais curto espaço de tempo possível. É certo que este assunto é complexo e que implica uma atenção redobrada por parte do Governo e Alberto Domingues. Se dizem que a dedicação tem sido total e a entrega não podia ser maior, isso significa que, evidentemente, não estão à altura dos acontecimentos. Falamos de uma instituição que concede ao Estado um veículo de intervenção na economia. Um garante de equilíbrio. Talvez o activo estratégico nacional mais importante nos tempo que correm. Urge travar a gestão errática que tomou conta da CGD nos últimos tempos, estabelecendo um rumo concreto e um projecto coerente para o banco público.

 

Montijo, 18 de Agosto de 2016

Instante

No momento em que coloco o pé fora do autocarro, a função aleatória do meu leitor de mp3 traz à tona a faixa “Instant Street”. Ainda faltavam uns pozinhos para o relógio ser oito da manhã. As ruas da cidade de Lisboa encontram-se desertas e nem as tão odiadas obras da Avenida da República quebram a sua monotonia matinal de Agosto.

 

Rapidamente aquela canção começa a tomar conta do meu corpo, arrepiando a minha epiderme. Eu, que careca me confesso, sinto os cabelos inexistentes eriçarem-se. É um instante. Impossível não abanar a cabeça, bater com a mão na coxa, sincronizar o passo ao compasso. Ligeiro faço o meu trajecto, olhando tudo de outra forma; por outro prisma. Graças a uma canção que, na minha modesta opinião, é do melhor que a indie pop já nos ofereceu. dEUS não poupou esforços nesta sua criação...

 

Relembro depois que esta melodia sempre me fez sentir assim. Mesmo quando a ouvi pela primeira vez e ainda não tinha tirado o sentido das suas palavras. Agora depois de a ouvir milhares de vezes e conhecer cada sobressalto. E à medida que a música vai crescendo – plena, apoteótica –, meus olhos ficam água, mas os óculos escuros escondem-nos dos restantes transeuntes. Já o dedo a estalar e o menear de cabeça ou o saltinho ocasional são impossíveis de disfarçar. Quem se cruza comigo fica a olhar, mas eu não me incomodo. Trauteio alegremente cada triste palavra.

 

Quando chego ao trabalho tiro os óculos escuros. Meus olhos transpiram do esforço emocional. Perguntam-me: O que tens? Respondo: Nada demais. Apenas a palavra de dEUS no meu ouvido e um instante de libertação da realidade.

 

Enquanto mergulho na redundante cadeira de escritório tento manter-me positivo, pensando que voltarei à rua num instante…

 

Montijo, 12 de Agosto de 2016

Lyrics to Instant Street

 

You're probably right, seen from your side, that I've been lucky
but I've been meaning to crack all week.
Yes I've been involved, it never resolved into anything shocking.
Pains playing yoyo in my body as we speak.

 

And now I found something to look for, but I can't decide,
'Cause I might find that to stroll behind is better than to score.
Just like I did before.

 

It wouldn't be true, not towards you, to say that I'm staying.
When on every single impulse, on every other move I react.
'Cause in any old creek, with changing technique, you'll see me playing.
After any old motherfucking blow I'll be back.

 

We turned away from instant stuff
our cracking codes were breaking up
our words were sucked out it made them clean.
And after lowness say it
and after more let it be known
Our codes are grown into something mean.

 

You're probably right, as for tonight, you're making me nervous.
What is it you want me to be thinking of?
I'll put on a movie, I'll play something groovy
as a matter of service
And I'll chuckle when you smile as a matter of love.
'Cause you know it's not my style to be giving up now.
And this pain in my side, I had enough.

 

This time I go for Instant Street
This life's a soulless excuse for all abuse and parenthesis.
The flyspecked windows and the stinking lobbies
they'll remain all the same, all the same.


This time I go. This time I go......

 

Inconseguimento Incendiário

 

Por motivos profissionais de tempos a tempos percorro o território nacional, a larga maioria das vezes fora das rotas turísticas.

Em 2003 vi arder vastas áreas do território que pouco tempo antes tinha visitado e fotografado. Senti aquele aperto no peito de quem está a perder parte de si.

Desde então tenho prestado mais atenção aos fogos e às consequências e aos sucessivos Governos que enquanto os incêndios lavram, enquanto os bombeiros lutam e algumas vezes perdem a vida, vão-nos dizendo que desta vez é que é, que vamos mudar a legislação para acabar com os incêndios.

Em 1998 cumpri serviço militar em Cascais. Era competência daquela unidade a patrulha do parque florestal Sintra-Cascais. Por alegada falta de pessoal a unidade trocou a competência com os Bombeiros Voluntários de Cascais à troca do almoço, e assim todos os dias tínhamos a visita dos bombeiros no nosso quartel.

Continuo a defender que o exército em parceria com a Força Aérea deveriam patrulhar o território do mesmo modo que a Guarda Florestal patrulha as matas de Monsanto em Lisboa.

Eu cumpri serviço militar e por isso mesmo tenho propriedade para dizer que o exército pode patrulhar matas. Não querem dar o tempo por perdido? Enquadrem as patrulhas em exercícios militares.

Pegando ainda neste campo, continuo sem compreender como é que pagamos pequenas fortunas pela concessão dos meios aéreos de combate aos incendidos, que muitas vezes verificamos nas noticias não voarem pelos mais diversos motivos, quando esse custo poderia ser muito inferior se a competência fosse da Força Aérea Portuguesa.

Porque andamos a pagar a mais por um serviço pior?

Outra questão é a limpeza das matas. Há uns anos que se vem falando na obrigatoriedade de limpar as matas.

Muita gente tem pequenas propriedades arborizadas de onde vai retirando um pequeno extra que adiciona ao ordenado de um trabalho “normal”. A limpeza das matas implicaria ou pagar a alguém para o fazer, o que retiraria a receita extra do terreno para a transformar numa despesa, ou o dono teria de abdicar do seu trabalho para limpar as matas. Visto assim é natural que as pessoas deixem andar, confiando à sorte.

Para além disso o ordenamento florestal é um inconseguimento.

No outro dia, numa incursão ao norte do país, escutava uma rádio local, talvez a Rádio Terra Quente, onde faziam um apanhado a um senhor que tinha plantado eucaliptos. O locutor da rádio dizia que ele tinha que pagar uma elevada multa porque não podia plantar ali eucaliptos e o senhor lá ia respondendo que tinha ido ao ICNF e que lhe tinham dito que podia, até porque um vizinho, do qual ele já tinha feito queixa por não poder plantar eucaliptos, tinha-os plantando sem que nada lhe tivesse acontecido.

Facto é que percorremos largos quilómetros por esse país fora, cheios de matas de eucaliptos.

Nestas alturas lá vêm as conversas politicas que temos de apostar nas matas com espécies autóctones mais resistentes ao fogo. Passado pouco tempo logo descobriremos que a resistência rende pouco ou a longo prazo e os eucaliptos rendem mais.

Não compreendo também como é possível que um sujeito preso por ter provocado um incêndio, passado poucos meses esteja na rua sem que sequer se coloquem mecanismos que verifiquem onde andam estes sujeitos.

Um incendiário é um terrorista sem pátria, sem religião ou ideologia.

Não sou a pessoa mais indicada para sugerir seja o que for. Sou apenas português que assiste ao país a arder.

Por motivos profissionais de tempos a tempos percorro o território nacional e para a semana voltarei a percorrer as estradas do país.

Para a semana deixarei de tirar fotografias a paisagens luxuriantes para olhar para veles e montes cinzentos com cepos de árvores ardidos como fósforos num imenso cinzeiro.

Para a semana, mais uma vez, vou concluir mais uma vez que a conversa que os sucessivos Governos, anos após ano nos vão dando sobre o combate aos fogos é apenas conversa de silly season.

Deixo apenas a questão, quando é que o PEV que vai insistindo nas questões do amianto como se fosse o mal do mundo, ou o PAN que vai defendendo os animais que mais despertam a sensibilidade da comunidade, começam a insistir nos debates quinzenais nas questões que defendem o nosso território no que toca a fogos e os que lutam na defesa deste território, os bombeiros.

 

 

DSCF2402.jpg

Uma das fotos que eu tirei o mês passado.

 

Crise de identidade (momentânea)

Saí do barco com a sensação de não saber quem era. Levei a mão ao bolso e percebi o porquê desta dúvida – tinha deixado a carteira no barco, com todos os documentos que me identificam como cidadão. Sobressaltei-me e por segundos senti-me perdido. Reagi e enfrentei a maré humana, com o vigor de quem luta pela sua própria existência.

 

Pelo caminho alguém me diz que se é uma carteira que procuro está em poder do pessoal da Transtejo. Atrapalhado agradeço... Ou agradeço atrapalhadamente, já não me recordo bem. Continuei a correr no sentido do barco, antes que zarpasse e levasse nas suas entranhas parte de mim.

 

Com a respiração inconstante justifico o meu regresso ao marinheiro: Esqueci-me da carteira. “Está lá em cima, com o Mestre” – responde-me. Apresso-me e subo as escadas do catamarã de dois em dois. Entro na cabine de comando e o Patrão da embarcação, diligente, tem a minha carteira na mão. Prontamente a entrega dizendo: “Íamos agora tentar averiguar de quem seria.” Agradeço, sem sentir qualquer necessidade de verificar o seu conteúdo. Não por pudor, apenas por ter a certeza que tudo estava bem. Só abri a carteira quando fui ao café e, até ao momento, não efectuei nenhuma busca exaustiva. É desnecessária.

 

Já por uma vez tinha passado pela traumática experiência de perder a carteira nos transportes públicos. Na altura nada apareceu. Foi um ver se te avias de burocracias. Hoje, o medo de travar novamente uma batalha de formulários voltou a assolar-me.

66. Catamara.jpg

Felizmente esse cenário não se confirmou. A minha momentânea crise de identidade foi rapidamente curada. Ao pessoal da Transtejo, especialmente à tripulação do Sé, e a quem possa ter encontrado a minha carteira estou profundamente agradecido.

 

O presente relato serve também de aviso à navegação para todos os que se acotovelam para criticar e rebaixar os funcionários do sector público. No cômputo geral o funcionalismo público é eficaz e de trato afável. E houvesse melhores condições de trabalho, que mais competente seria. Na esmagadora maioria das experiências que tive com instituições públicas conto pelos dedos de uma mão as vezes que fui maltratado. Claro que bestas há por todo o lado. Incluindo no horário nobre televisivo, em que inúmeros comentadores debitam o seu ódio visceral a tudo o que é público, incluindo os seus funcionários.

 

Os trabalhadores da Transtejo zelam pelo transporte dos seus utentes de forma segura e o mais eficiente que lhes é possível. Prestam um serviço público inestimável e fazem-no de forma cordata, muitas vezes ao arrepio daquilo que estão a sentir e das injustiças que são alvo. Queira o Governo e a Empresa Pública, olhar para estas pessoas doutra forma, devolvendo-lhes dignidade profissional e melhorando as suas condições de trabalho.

 

Montijo, 10 de Agosto de 2016

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