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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Canha aqui tão perto...

(artigo publicado hoje no Diário da Região)

É fácil perceber o empenho do executivo montijense na solução da implantação do aeroporto complementar ao Aeroporto Humberto Delgado, para as companhias de voos low cost, na Base Aérea n.º 6 (BA 6). Esta é uma oportunidade única de lavar a face relativamente a inúmeras promessas que ficaram por cumprir desde 2002, aquando da deslocalização dos barcos para o Cais do Seixalinho. Assim de memória recordo a ciclovia e passeio ribeirinho, o parque de estacionamento gratuito, os transportes gratuitos e de diminuta pegada ecológica, a creche, o restaurante panorâmico, a circular externa... Quando o Presidente da Câmara do Montijo anuncia que entregou um caderno de encargos à ANA Aeroportos, com as reivindicações do concelho para receber os voos comerciais, chega a parecer enternecedor.

 

Convém relembrar que a ANA Aeroportos é agora detida pela empresa francesa VINCI Airoports, que de repente se viu catapultada para administrar toda a rede de aeroportos nacionais, com a experiência adquirida de gerir pequenos aeroportos regionais. Como empresa privada o seu objectivo final é, como é lógico, a persecução do lucro. Será algo ingénuo por parte de Nuno Canta pensar que a ANA acatará de bom grado investir milhões no concelho do Montijo, sem qualquer contrapartida evidente por parte do município. Porque na realidade o que se pretende é uma plataforma para receber os viajantes dos voos comerciais e imediatamente embarcá-los para a capital. Provavelmente a única obra de monta num possível investimento na BA 6 será relativa ao Cais do Seixalinho. A adaptação desta estrutura para receber mais barcos e mais pessoas e a necessária ligação ao aeroporto civil. Um compromisso mais abrangente que isso por parte da VINCI será praticamente impossível.

 

Pela notícia do dia 21 de Setembro de 2016, do Diário da Região, o Governo Central já percebeu isso. Não se trata apenas de “permitir à ANA fugir à obrigação contratual de fazer esse investimento”, como adianta a Maré Baixa dessa mesma edição. Trata-se, a meu ver, de perceber que semelhante investimento se iria limitar à escala do Seixalinho, criando um possível desequilíbrio territorial. Paralelamente a dependência brutal da comunidade em relação à actividade aeroportuária, no que seria sempre uma solução a prazo, poderiam causar passivos sociais de difícil correcção. Entremeia-se este tema com a falsa questão da Força Aérea para desviar atenções.

 

A alternativa seria, já o sabe o Governo e a Câmara Municipal, o investimento mínimo avançar por parte da ANA e toda as estruturas complementares, nomeadamente nos acessos e mobilidade, a expensas do poder central e local, com ou sem fundos comunitários. Uma factura demasiado elevada para uma solução temporária.

 

Entretanto temos Canha aqui tão perto...

Opiniao_Diario-Reg_2016-09-23.JPG

 

A Narrativa Demagógica

Abaixo transcrevo artigo de opinião publicado hoje no Diário da Região
IMG_20160919_170314.jpg

 

Nos últimos tempos, talvez por já se sentir o perfume de autárquicas no ar, começou a propagar-se uma estranha narrativa pelos lados do Montijo. A mesma sustenta que os residentes que apontam lacunas ou alertam para o que pode estar menos correcto não merecem a terra que os alberga. Tal sente-se nas redes sociais, mas também nas ruas e nas próprias reuniões do poder local.

 

Para sustentar a sua teoria, estas pessoas vão atirando uma ou duas dicas de carácter la palisseano, como por exemplo: "as coisas podiam estar ainda pior" e que "nos concelhos limítrofes é (sempre) pior". Tudo redunda num “o Muntije é Linde!” e não se fala mais nisso… Como se o importante fosse discutir o acessório ou a quem está reservado o direito de gostar mais do Montijo.


Não é preciso um raciocínio muito profundo para perceber que esta onda que se vai formando é uma pura mistificação da realidade. E sustentada por um pensamento anti-democrático. Uma clara incompatibilidade em conviver com a crítica, para além da falência completa do debate de ideias. O que se pretende dar a entender é que quem não alinha totalmente com o poder local, não quer o bem do Montijo. Quem critica, quem opina, quem alerta ou quem emenda, não pode ser uma pessoa de bem. E esta narrativa demagógica encontra terreno fértil, com as festas, festinhas e festanças, a promessa do regresso do Carnaval em ano eleitoral (já antevejo uma tolerância de ponto), os galardões, os instantâneos (que até parecem de ocasião) cada vez que uma obra pública toma forma ou encontra solução.


Ora é óbvio que quem critica ou apresenta discordância com o rumo escolhido para a sua terra se preocupa com a mesma. Se assim não fosse, não identificava a falta nem apontava outro rumo. A discordância da forma como são conduzidos os desígnios do Montijo não significa ódio à terra. Nem tampouco a crítica ao que está incorrecto ou incompleto significa discordância com o poder local. Dizer, por exemplo, que a recolha de lixo é deficiente ou que existem lotes de terreno nos quais convinha cortar o mato, são meras indicações de onde o poder local pode estar a falhar e que convém ter uma atenção redobrada. Os alertas podem não significar oposição à linha política do executivo camarário.


Aceitar com a humildade política necessária a crítica é a única forma de melhorar o desempenho. Não me parece de todo o que se passa actualmente no Montijo, pois cada vez que é apontado um lapso, imediatamente se ergue a muralha do discurso defensivo e se desfere um contra-ataque estéril àquilo que é uma posição normal em democracia. O que esta manobra revela é um certo desespero do poder instalado há tempo demais e das suas castas partidárias ou elites cúmplices, que vivem à sua sombra.


Pensar Montijo é querer o melhor para o território. A comunidade agradece um debate de ideias profícuo.


Montijo, Agosto de 2016

Oh Barreto, grande barrete!

 

 

António Barreto escreveu hoje no seu espaço opinativo do DN “As esquerdas e o dinheiro”.

Mais para a frente alonga o titulo para: as esquerdas e o dinheiro dos outros dizendo que a maioria das pessoas de esquerda não têm dinheiro. Efetivamente eu sou de esquerda e estou nos antípodas do Belmiro de Azevedo. Não creio, no entanto, que se viesse a ter a minha visão do mundo se alterasse.

O que ele quer dizer é que a malta “de bem” nasce habituada a explorar e tornam-se por norma conservadores, e passe a redundância, para conservarem o seu status.

O que ele diz é que as esquerdas são ligeiras com o dinheiro dos outros. O que ele não diz é que as direitas vão buscar o seu património às esquerdas.

Se víssemos a coisa como as marés que ora vai num sentido ora vai no outro, a coisa até seria equilibrada. O problema, e como diz Rui Tavares, é que o pneu esquerdo da politica tem andado sem ar e a viatura ora vai para a direita ora vai para o centro, mas nunca vai para a esquerda.

As direitas estão agora inquietas porque a “geringonça”, muito por força do BE, do PCP e do PEV (que é PCP mas está inscrito como unidade própria e vamos considera-lo como tal) têm dado ar ao pneu esquerdo do PS. Não é fácil convencer a UE que em Portugal existem pessoas de esquerda e não será fácil convencer o BE, PCP e PEV, até por serem partidos anti-UE que não se pode mudar tudo de uma vez e é preciso negociar, conquistar de um lado e ceder do outro.

O Barreto quer-nos enfiar o barrete, mas o que ele não diz é que os muito ricos pouco pagam de impostos e que quando começam a pagar mais do que desejam, exportam o dinheiro para outras paragens que lidam de modo brando com o dinheiro dos outros.

O Barreto, também ele nos quer enfiar o barrete que o imposto sobre património imobiliário acima de meio milhão de euros é um roubo. Eu percebo que ele tenha imobiliário acima desse valor e não se sinta rico. Olhando para o Bill Gates 99,9% não se achará rico, mas a verdade é que quem tem imoveis acima de 500 mil de euros vive acima da capacidade de 90% dos portugueses.

O Barreto quer-nos enfiar o barrete, mas governos de esquerda e de direita governam-se com as receitas da classe média. O que ele não quer, e por isso opina, é que este Governo queira fazer o que lhe é exigido pelo povo, redistribuição de riqueza.

O Barreto quer-nos enfiar o barrete, mas a malta está atenta!

Nem mentira, nem verdade

Pelas ruas do Montijo, os munícipes já se habituaram à presença dos gigantescos cartazes (hoje denominados "outdoors") onde a Câmara Municipal nos presenteia com o título de cidade mais atrativa de Portugal continental. Em tom de bricandeira, costumo dizer que as estruturas que suportam estes cartazes, são o mobiliário urbano mais bem tratado da cidade. Adiante. Numa rápida pesquisa ao sítio oficial do município na internet ficamos a perceber a que se refere tal epíteto. Com efeito essa distinção não existe em si mesma. Foi extrapolada do estudo do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) - "Cidades Portuguesas: um retrato estatístico", baseado no Censos de 2011 e que veio a lume em 31 de Outubro de 2014, através de informação à comunicação social. Mais concretamente, o executivo camarário refere-se à estatística "Proporção de população que 5 anos antes residia fora do Município, Portugal e cidades das regiões NUTs 2", onde o Montijo apresenta uma percentagem de 18%, sendo efectivamente a cidade que, em termos relativos, mais população fixou no território continental. E sobre este assunto o INE nada mais diz. Podem consultar a nota do Instituto aqui.75. nem mentira nem verdade.jpg

 

Surfando essa onda, a Câmara Municipal decide, e bem, fazer eco desta constatação. Mas rapidamente o que deveria ser uma simples réplica do estudo do INE, que em boa verdade não avança com qualquer explicação para este fenomeno, se torna num enredo de consistência errónea. É que há coisas que não sendo mentira, também não correspondem inteiramente à verdade. Na nota que publica no site oficial do Município (http://www.mun-montijo.pt/frontoffice/pages/833?news_id=601) depois de acertar no 2 primeiros parágrafos, resvala dizendo que "Este estudo é revelador da localização privilegiada que o concelho do Montijo assume na Área Metropolitana de Lisboa (...)". E continua até ao final num auto-elogio provinciano, que em nenhuma parte do estudo do INE encontra respaldo. Já na rubrica Retrato Estatístico que está inserida na área Investir do site da Câmara (http://www.mun-montijo.pt/pages/923), adianta-se que "Entre as razões que contribuíram para os resultados deste estudo, encontra-se a qualidade do espaço público, nomeadamente a existência de muitos espaços verdes (...)". Mais uma vez se começa com as 3 primeiras frases certeiras, para rapidamente surgirem interpretações dúbias que, segundo a Câmara, se baseiam no estudo do INE.

 

 

Na altura, o Diário de Notícias (DN) e o Diário da Região (DR) também abordaram o relatório do INE. O DN falou com 2 ou 3 pessoas e descobriu que a Ponte Vasco da Gama e o factor económico vinham à cabeça das razões pelas quais se fixava população no Montijo. O sossego e qualidade de vida também foi referenciado. Já o DR limita-se a analisar o estudo, nomeadamente no que concerne às cidades da região e dá tempo de antena ao edil do Montijo.

 

Para que fique claro acho perfeitamente normal que a Câmara Municipal faça a apologia do trabalho executado durante os mandatos, actual e transactos, e o divulguem. Mas se formos intelectualmente honestos não podemos dizer que o aumento populacional apresentado no estudo do INE se deve às políticas camarárias, porque pura e simplesmente não existem dados que suportem essa conclusão.

75. nem mentira nem verdade 1.jpg

 

Todos sabemos que uma cidade que atraí população não é necessariamente atractiva. Existem um sem número de factores a levar em linha de conta. E quando uma pessoa decide fixar residência, por muito que se diga o contrário, o factor económico continua a vir à cabeça. Se o Montijo fosse realmente atractivo, os novos residentes não moravam apenas na cidade; viviam-na! E tal não sucede. O grande aumento populacional deu-se para os lados do Afonsoeiro, onde alguns residente muito raramente vão ou nunca foram à baixa do Montijo...

 

 

Para uma cidade ser atractiva não basta plantar betão, negociar umas contrapartidas verdes e lúdicas com os empreiteiros e aguardar o mais que provável aumento da população. É preciso apresentar essas pessoas ao Montijo, à sua identidade. Incluí-las na comunidade local. Não basta ceder-lhes um dormitório e afirmar que temos um óptimo Centro Comercial, como afirma o Presidente de Câmara Nuno Canta na entrevista do DR de 7 de Novembro de 2014, como intuito de ilustrar a "melhoria do comércio".

 

Bem sei que dá bastante trabalho e demora o seu tempo constituir uma identidade. E incentivar e espicaçar o activismo na comunidade local, ainda é mais difícil. Mas desbaratar todo o património cultural de um território demora menos tempo que um fósforo a arder. Torna-se fundamental aproveitar todo este potencial para enriquecer a identidade montijense , fundamentada num fenómeno inclusivo, no qual a comunidade é agente activo em moldar a nova cidade. Será ela, como colectivo, que melhor decidirá qual o rumo futuro. Para dessa forma a cidade se tornar realmente atractiva ao olhos de todos/as.

 

Montijo, 17 de Setembro de 2016

Que contas são estas?

 

 

Há pessoas que não compreendem muito bem em que mundo vivem ou pelo menos apenas têm uma visão muito afunilada do mundo.

Devem ser estes que para não olharem para o “outro mundo” erguem agora muros para manter as coisas bem separadas.

O tema do mercado imobiliário dá pano para mangas e muito provavelmente estou muito longe de conhecer sequer metade do missal, mas como tem sido o tema da ordem, não desarmo.

Para este tema dos imoveis destaco duas pessoas em particular que não conhecem, para este efeito, o país real. Chamo a nós Assunção Cristas e o arauto da direita, José Gomes Ferreira (JGF).

Para quem acompanha o que escrevo deve estar recordado que não há muito tempo escrevi assim “-Imoveis de luxo, sejam de habitação permanente ou não, devem ter IMI agravado;”.

O artigo em que esta frase se insere não tem ainda um mês e ao contrário de Marques Mendes que tem sempre informações privilegiadas, garanto que não estava ao corrente da iniciativa do Governo tributar património imobiliário acima dos 500 mil euros.

Para algumas pessoas com cidadania portuguesa 500 mil euros em património imobiliário não demonstram riqueza de uma pessoa ou agregado familiar.

 

Sem Título.jpg

 

 

 

2013

Em Percentagem

Escalões de Rendimento Bruto (em euros)

Total

 5 055 680

100%

 

0-5.000

 849 358

16,80%

 

5.001-10.000

 1 599 767

31,64%

 

10.001-13.500

 667 356

13,20%

 

13.501-19.000

 659 121

13,03%

 

19.001-27.500

 552 617

10,93%

 

27.501-32.500

 175 336

3,46%

 

32.501-40.000

 181 153

3,58%

 

40.001-50.000

 138 370

2,73%

 

50.001-100.000

 196 993

3,89%

 

100.001-250.000

 33 333

0,65%

 

250.000+

 2 276

0,05%

 

 

Os dados acima reportam ao rendimento bruto por agregado familiar, ou seja, 16,8% dos agregados familiares sobrevivem com menos de 5 mil euros anuais. Podemos adicionar o escalão seguinte de 31,6% que sobrevive com menos de 10 mil euros anuais. Isto é o mesmo que dizer que numa casa onde mora um casal com um filho, uma família típica portuguesa, 10 mil euros terão de chegar para pagar as contas todas do ano. Isto equivale a 277 euros mensais por pessoa.

José Gomes Ferreira aparece muito indignado com quem tem uma habitação de luxo no centro de Lisboa ou no Porto de 600 mil euros como se fosse um ataque à maioria dos portugueses.

É preciso dizer que um agregado familiar que ganhe 20 mil euros anuais e use toda essa verba para pagar a casa, demoraria 30 anos para a pagar e estou a dar desconto nos juros da hipoteca.

A JGF doí-lhe na alma o investimento estrangeiro que não se vai concretizar devido a este novo imposto. Que investimento? Vistos Gold? Especulação imobiliária para a aquisição de Vistos Gold?

O sujeito herdou uns terrenos? Estou certo que se lhes der uso o rendimento desses terrenos será superior ao acréscimo do imposto. Quer deixar lá os terrenos parados? Paga mais IMI porque tem um bem que não gera mais valias. Tem uma habitação herdada e faz dela casa de férias? É bem de luxo e tem obviamente que ser tributado como tal.

 

Isto faz-me lembrar um momento entre Manuela Moura Guedes e Miguel Sousa Tavares quando este defendia que as Scuts tinham de ser pagas na ótica do utilizador pagador ao que Manuela Moura Guedes remata “Se tivesses de pagar portagem na marginal se calhar já não falavas assim…”.

Assunção Cristas, José Gomes Ferreira e outros tantos comentadores fazem parte daquela classe que defende Portugal, mas que nunca defende os portugueses e é por isso que se insurgem contra medidas destas.

É um facto que para se aliviar de um lado, mantendo as mesmas despesas, é preciso carregar de outro. É igualmente facto que é da competência de o Estado fazer uma correta repartição de rendimentos e promover justiça social. Afinal quem acabou com a classe média, quem defende a descida de salários é quem agora se queixa que tem de pagar mais em impostos indiretos.

A suspensão da individualidade

74. A suspensão da individualidade.jpg

Vulgarmente tentamos encontrar nos outros aquilo que nos identifica. Ou melhor, projectamos a nossa personalidade em outrém, firmes de que as restantes pessoas pensarão como nós. Nada mais errado. Até porque existem cada vez mais pessoas interessadas em abdicar da sua individualidade a troco de uma subida na escala social. O lugar-comum de que as pessoas são todas diferentes parece começar a desvanecer. As modas e tendências sempre foram apanágio disso mesmo. Mas agora falamos na uniformização das características e formas de estar. Uma espécie de formatação do indivíduo.

 

A frontalidade e a coerência (para com os outros e para connosco) são característricas cada vez mais raras. A conivência com o status quo abre portas para oportunidades que de outra forma dificilmente surgirão. A tal escalada social permite um desafogo na vivência quotidiana maior. A contrapartida é abdicar de muitos dos nossos princípios; deixar de defender aquilo em que acreditamos; por de lado o que nos define; deixar de fazermos sentido...


Valerá a pena renunciar à nossa essência em troca de um carro mais potente ou de uma férias nas Caraíbas? É uma questão de perspectiva e de coluna cervical. Até agora nunca estive disposto em penhorar a minha dignidade. E, pelo que me conheço, dificilmente colocarei no prego aquilo que sou.


Montijo, 16 de Setembro de 2016

A triste história da Justiça Portuguesa e o juiz de Mação.

Uma série de gente não gosta de Sócrates. Porque é arrogante, concordo. Muitos chamam-lhe mentiroso. Outras nem sequer o suportam. Todos têm histórias de amigos, de amigos de amigos que sabem que Sócrates fez isto ou aquilo. Até aqui tudo bem. O problema está quando o rumor, o diz que disse, leva à prisão preventiva de alguém por nove meses. O problema está quando um juiz insinua na televisão que não tem dinheiro em nome de amigos, tal como Sócrates tem (e provas?). O problema está quando esse juiz não consegue deduzir acusação a Sócrates e vem para a televisão gabar-se de ser poupado, trabalhador, o “saloio de Mação”. O problema está quando a justiça pode prender sem acusação, com fortes indícios que afinal são apenas rumores, e um juiz pode vir insinuar que afinal não vai prender Sócrates (porque foi isso que o juiz Carlos Alexandre veio fazer) mas que fez tudo bem e que a sua honra está intacta. Portugal precisa de um debate profundo sobre justiça. Portugal precisa de perceber que o rumor não basta e que o tempo da caça às bruxas já passou. E que prender sem provas é inconcebível e imoral. E que hoje foi Sócrates mas amanhã podemos ser nós. E que este juiz, moralista e mesquinho não nos representa. Pelo menos, a mim não.

 

Nero ri-se

 

Do alto da sua imortalidade, Nero ri-se. Com preverso prazer vislumbra as labaredas a varrerem Portugal. Cada nova frente, cada coluna de fumo, é um bálsamo para o incendiário. E a cada gargalhada do pirómano, nova chaga se abre no país, que se pinta de cinza. Algumas gangrenam. Como que apodrecido, o país jaz.

 

Sentimos a impotência, a estupidez e a maldade a cada novo incêndio que deflagra. E a contínua conversa de que é preciso é coiso, e tal, e mais não sei quê. Mas nunca se coisa, nem tal, nem não sei quê... A cada ano se repete a mesma desgraça. São feridas na natureza que dificilmente sararão; património insubstituível; vidas perdidas e famílias desmembradas; projectos em suspenso. E uma aposta ambiental no país permanentemente em causa.

 

Mas temos a legislação, alguns meios e muita experiência. O que falta então? Falta que das palavras passemos à acção. Que os incêndios não sejam tema de conversa apenas no Verão, mas que se comecem a prevenir logo no Inverno. Passa por equipar e dignificar os bombeiros, sejam eles voluntários ou sapadores. Eles que são de uma entrega e dedicação inesgotável. Falta, essencialmente, pensar e executar o ordenamento do território, com especial ênfase no planeamento das nossas florestas. E coragem política para encarar os interesses instituídos.

 

Se nada for feito, Nero continuará a rir. Pensando que onde os romanos falharam pela força do gládio é agora facilmente subjugado pela força do fogo.72. Nero Ri-se.jpg

Mercado de Habitação:Bolha Imobiliária (parte2)

Muito se fala em Portugal sobre a crise da construção civil, e não é para menos uma vez que tem sido uma parte substancia do motor económico português.

O problema deste mercado é que é em larga medida baseado em valores que pouco ou nada resultam da realidade, do valor real do produto, mas de quanto é que o comprador está disposto a pagar.

Até meados da década de 90 não era muito fácil adquirir habitação própria devido ao juro elevado mas à medida que o juro foi descendo a banca foi facilitando a concessão de crédito e a venda de imoveis disparou.

valor imoveis.jpg

Dados Prodata

taxas de juro.jpgFonte: Inês Quental de Melo

 

 

É hoje fácil de perceber para quem mora nas áreas suburbanas de Lisboa que a construção não respeitou regras urbanísticas, paisagísticas nem sequer de qualidade deixando aos futuros proprietários o ónus elevado da manutenção dos imoveis adquiridos.

Há banca foi permitido conceder credito a quem podia e a quem mal podia na esperança de um futuro melhor.

Aos construtores as licenças foram dadas sem critério e mesmo quando nem sequer existiam licenças, lá se aprovava depois de construir e raros são os casos de obras que foram demolidas pela falta de licenciamento. É mais fácil encontrar hoje construções semiconstruídas e abandonadas por falência do construtor do que as demolições provenientes de construção sem licenciamento.

Mas num mercado em que o valor do arrendamento é semelhante e em alguns casos até mais caro do que a aquisição da habitação, é natural que a maioria prefira adquirir a sua própria habitação ainda que se esteja muitas vezes a comprometer para a vida.

E isto é fácil de perceber. O custo das habitações não parou de subir e chegou a um patamar tão elevado que já não estava acessível para a maioria uma vez que o custo de consumo subiu francamente mais do que a média salarial, a banca solucionou a questão de um modo airoso. Subiu o prazo da hipoteca para 40 anos de modo a diluir o valor.

Quem não adquire habitação fá-lo porque não pode ou porque não quer. Não quer quando não se quer comprometer a longo prazo com um crédito que se arrasta por décadas. Isto aplica-se sobretudo a pessoas em que a sua actividade laboral peça com frequência deslocações.

Não pode quem não tem acesso ao crédito porque não tem rendimentos suficientes ou quem não tem estabilidade laboral suficiente como é o caso dos professores os das profissões precárias a prazo e a recibos verdes.

A subida do valor imobiliário interessa não só ao construtor como ao Estado que arrecada mais impostos. Interessa a quem arrenda porque lhe permite subir o valor do arrendamento.

Os únicos prejudicados são os que têm direito à habitação mas que na verdade não é bem um direito, é uma condenação para a vida toda.

E repare-se, se eu adquirir um imóvel por 100 mil euros e o arrendar, eu ganho mais do arrendamento do que tenho de pagar ao banco. Durante o início da crise era fácil encontrar cartazes colados onde no mesmo cartaz se ofereciam para adquirir casas e ao mesmo tempo aluga-las, eventualmente até ao vendedor.

Ao contrário do que nos querem fazer crer, o sector da construção e imobiliário não fazem parte do motor da economia, são antes lastro pesado a médio e longo prazo para o país.

 

Concluo esta questão sobre a construção e imobiliário com um pequeno pensamento económico:

Cada vez que um de nós se dirige ao banco para pedir um crédito imobiliário, vai lá no sentido de pedir adiantado o dinheiro que ainda não tem mas espera vir a ter.

O banco, por seu turno também não tem esse dinheiro mas espera vir a lucrar de algo que não tem sendo portanto um intermediário.

O banco para me emprestar dinheiro vai pedi-lo aos investidores internacionais a uma determinada taxa de juro. O banco em cima desse juro soma o seu juro, ou seja, o seu lucro.

Vamos imaginar que eu preciso de 100 mil euros e o banco concede-mos por um juro de 2% tendo este de pagar 1% aos investidores. Eu terei de pagar ao banco 102 mil euros, o banco lucrará 1000 euros e para fora do país seguirão outros 1000 euros para o lucro do investidor.

Quer isto dizer que ao considerarmos o mercado imobiliário como um motor da nossa economia, o que estamos a fazer é fazer com que a riqueza produzida escorra para investidores internacionais. Quer dizer que dar crédito sem critério levou a banca a ficar em muito maus lençóis como bem sabemos mas que a sua falta de rigor somos nós que a pagamos seja nos milhões para o BPN, para salvar o BES ou para salvar a Caixa Geral de Depósitos.

O mercado imobiliário especulativo castra-nos a produção de riqueza e responsabiliza directa e indirectamente pela ingerência da banca.

Enfim, o povo paga…

Não há discursos como estes - Avante (2015/2016)

 

 

Uma coisa que eu não aprecio é políticos e politicas cata-vento.

O PCP e os seus militantes dizem que são sempre rígidos perante a sua ideologia e no seu discurso, descubro eu que sofrem de um mal muito nacional, a memória curta.

Não há muito mais que um ano, discutindo com um militante comunista, ia-lhe dizendo que o discurso de Jerónimo de Sousa começada a dar a ideia de um possível diálogo de convergência. Eram mensagens subliminares, num discurso em que em quase tudo metia o PS no mesmo sado de gatos do PSD e CDS mas que quanto mais se aproximavam as eleições mais ia dizendo “se o PS estiver a fazer um Governo verdadeiramente de esquerda…”. Mas este discurso só apareceu a duas semanas das eleições.

Antes disso eram completamente contra esse tipo de ideias. Podemos verificar isso aqui, aqui ou aqui.

O discurso passava muito por “não podemos convergir com um partido responsável pela entrada na troika em Portugal”.

Direi eu que os partidos responsáveis pela entrada na Troika em Portugal foram todos os que estavam na oposição e chumbaram no parlamento o PEC-IV. Mas aqui tenho de dar o benefício da dúvida dada a subjectividade da questão. Teria resolvido ou apenas adiado?

A 15 de Setembro de 2015, num debate entre Catarina Martins e António Costa, tudo muda. Ao minuto 61, depois de uma hora a explorar os podres do passado do PS, Catarina Martins diz com ar de quem tem os trunfos todos na sua mão que tem 5 questões que bloqueiam a “geringonça” e que se o PS ceder o BE avança na convergência.

A comunicação social sempre a dar destaque a Mariana Mortágua que aparece SEMPRE a acompanhar Catarina Martins, o BE passou de moribundo a terceira força politica nas sondagens.

O PCP tinha duas hipóteses: ou encarneirava na convergência ou mantinha-se fiel ao seu discurso de sempre e poderia acabar como a ovelha negra da história permitindo um Governo de direita ou forçar uma coligação entre o PS e o PSD.

A “geringonça” foi o compromisso possível para nenhuma das partes abdicar da sua palavra para com os seus eleitores e ao mesmo tempo dizer que bloqueou um Governo de direita.

Nos debates quinzenais a “geringonça” vai-se defendendo e viram-se todos para atacar a direita, cá fora vão lançando umas farpas para legitimar a sua independência politica. Não se comprometem no Governo ainda que estejam claramente dentro dele.

É com o PCP, PEV e BE que as medidas são aprovadas ou não em parlamento. É com o apoio destes que o OE é ou não aprovado. Não estando representados no Governo, são cúmplices.

Por isso acho curioso ouvir o discurso de Jerónimo de Sousa vir agora, depois de dizer que só formaria com o PS um verdadeiro Governo de esquerda se o PS assumisse medidas de esquerda, dizer que este é um Governo minoritário do PS como se o seu aval fosse coisa somenos.

Podemos comprar o discurso de 2015 e 2016 em que o PS foi referido 20 vezes face a meras 3 referencias este ano para os camaradas verem que ainda são diferentes.

Não me inquieta minimamente que o PCP/PEV/CDU seja diferente. Inquietamente a falta de espinha dorsal em que se quer agradar a gregos e troianos mas sem coragem para assumir que nem sempre é possível ganhar tudo nem a coragem de assumir o protagonismo que lhes era exigido.

O mesmo se aplica ao BE.

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